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Encontro-me neste momento a meio do meu 2666 de Bolaño. Se pensam que vou fazer qualquer tipo de crítica literária, lamento mas não vou. Só queria dizer que desde que o comecei a ler, ele vai comigo para todo o lado. Já deixei dinheiro no multibanco porque, enquanto não saltava o cartão, pus-me a ler duas linhas do livro e esqueci-me do resto do mundo. Já me esqueci do jantar no microondas porque, nos dois minutos de aquecimento, fui só acabar aquela página e, dessa para outra, acabando pelo jantar transitar para o dia seguinte. Já comprei um bilhete de cinema, com uma hora de antecedência, e pus-me a ler só um bocadinho e, quando dei por mim, tive que ir à sessão seguinte.
Não consigo dizer sobre o que é o livro porque, não sendo um livro de histórias, está recheado delas. Não sei dizer que tipo de escrita tem Bolaño, porque a cada virar de página, ele surpreende-nos com algo diferente. Nem sequer sei a razão do título ser aquele número estranho. Mas garanto-vos que, como leitora, não iria tolerar a nenhum escritor, uma frase com mais de seis páginas, repito, uma frase com mais de seis páginas, com histórias cheias de histórias, ao estilo matrioskas, a não ser a Bolaño, que é absolutamente genial. E não só li num fôlego a frase com mais de seis páginas, conduzida de forma mágica pela mão do escritor, como no final apeteceu-me aplaudi-lo de pé. Somos pequenos perante a grandeza do livro.
Face a isto é fácil perceberem a minha irritação quando oiço ou leio alguém dizer: “Então, já aderiste à moda do Bolaño?”. Curiosamente, os que pensam assim, são pessoas que, adivinhem, nunca pegaram no livro e têm uma vaga ideia de ser algo semelhante, pelo menos em termos de marketing, a um Dan Brown. Ora, nós não temos todos que gostar do mesmo, mas curiosamente ainda não conheci uma pessoa, uma só, que tivesse lido o livro todo e que não tivesse gostado. O que eu não tenho é que quase esconder o livro, como se isso fosse possível, para não ter de levar com a ignorância dos outros. É que neste momento, em relação ao Bolaño, existem apenas dois tipos de pessoas: os que já leram ou estão em vias disso, e os que, por pseudo-snobismo, nunca o leram nem o vão ler porque são contra as modas. E isso já não é ignorância. É mesmo estupidez.
Ide, ide ler.